Procurar

Uma crítica tem sempre subjacente um juízo de valor, uma análise subjectiva e, como tal, diz muito mais sobre o observador do que a respeito do observado.

Uma análise deste tipo deveria ser considerada uma espécie de violência intelectual e moral, pois quando observamos comportamentos e atitudes de outras pessoas e nos dispomos a interpretá-los, estamos a analisar factos isolados. Estamos a dissecar escolhas de outras pessoas sem saber como é estar na pele delas. Podemos até saber o que faríamos se estivéssemos no seu lugar, mas nunca saberemos como agiríamos se tivéssemos o seu sistema de pensamento, as suas crenças e limitações internas.

Actos condenáveis, antissociais, injustos e ilícitos, devem ser julgados pelas instituições de direito e os seus praticantes deverão enfrentar as consequências das suas acções.

No entanto, nós, sociedade, enquanto grandes intérpretes da vida alheia, se realmente queremos dispensar algum do nosso tempo a pensar sobre a vida de alguém, que nos tentemos posicionar o mais fielmente possível no seu lugar e façamos o exercício mental de pensar no impacto que cada uma das vivências possa ter tido na formação da sua personalidade e, consequentemente, na sua forma de fazer escolhas e tomar decisões.

Uma vez li uma frase que nunca mais me esqueci:

“As críticas são como os pombos, voltam sempre ao pombal.”

E o facto é que, ao julgarmos outras pessoas estamos simplesmente a analisar as suas vidas segundo o nosso ponto de vista e os nossos próprios padrões e, por isso, a nossa opinião dirá mais sobre nós mesmos do que sobre a pessoa em questão.

Facilmente, alguém mais atento, identificará nas nossas críticas a outrem, medos e anseios, fragilidades e crenças internas dos quais não temos sequer consciência. Isto acontece porque o comportamento dessa outra pessoa fez reflectir em nós algo que ecoou cá dentro e que verbalizamos na forma de crítica. Como se de um espelho se tratasse. Um reflexo que traz à tona algo que em nós estava, até então, latente.

O certo é que não podemos comentar o desconhecido e aquilo que chega até nós é o resultado externo de todas as condicionantes a que cada pessoa está sujeita.

O que conhecemos é o nosso modelo mental, aquilo em que acreditamos, os nossos princípios e valores, a forma como agimos, esse é o nosso ponto de partida e de chegada, também.

Rotulamos os outros como se defini-los e encaixá-los em categorias, fosse determinante para a nossa própria existência.

O comportamento dos outros deveria servir para que aprendêssemos com eles sem termos de passar pelas mesmas situações e a única analise a fazer é se nos identificamos. Se sim, mais um aspecto que se partilha. Se não, há que seguir o seu caminho com respeito e tolerância pela diversidade de todos e a unicidade de cada um.

Paremos um minuto para um rápido exercício: o que faz uma criança de dois anos perante um castelo de areia, uma construção de Lego ou qualquer outra coisa empilhada que nos tenha dado mais ou menos trabalho a fazer?

O seu primeiro instinto será o de deitar tudo a abaixo por pura diversão, por acharem graça a ver cair tudo ao chão e, por vezes, ruidosamente. E não nos zanguemos por isso, faz parte de ser criança, fazer coisas só porque sim, porque apetece e é engraçado. Temos tempo de aprender. E que essa aprendizagem possa ser a mais suave e assertiva possível.

Assim, embora para muitos a infância possa ser já uma fase remota na memória e com todas as experiências que preencheram esse hiato de tempo que nos separa da criança que fomos, não nos esqueçamos de que todos transportamos em nós este nosso “eu” de 2 anos e, mais ou menos moldado, esse pequeno ser, fará incursões ao nosso quotidiano. Por isso, não sejamos tão ríspidos connosco nem com os outros e permitamo-nos errar as vezes que forem precisas até que aprendamos a lição.

As nossas decisões erradas, ajudam-nos a que, posteriormente, possamos tomar decisões mais acertadas e não nos definem enquanto pessoas, enquanto seres que se debatem, muitas vezes, com a sua própria personalidade.

Esta coisa de ser “persona” e ter personalidade nem sempre é fácil, diga-se de passagem, que é tarefa para uma vida ou várias até, quem sabe.

As nossas escolhas não dizem quem somos, quanto muito dirão se as sabemos ou não fazer. Que não se perca tempo a rotular as pessoas pelas suas decisões. A vida é feita de tentativas-erro, só assim se evolui e todas as escolhas erradas conduzem a futuras escolhas certas. As nossas opções dizem apenas em que fase do caminho estamos e para onde nos dirigimos.

Seja por falta de conhecimento, experiência, ferramentas internas, recursos físicos e emocionais para saber lidar com as coisas e gerir-nos a nós próprios e às nossas emoções, há lições que se tornam mais difíceis e que temos de repetir mais vezes até passarmos ao capítulo seguinte e isto acontece com toda a gente, a diferença é que cada um tem a sua própria bagagem.

Numa primeira instância e até termos autonomia e capacidade de decisão, somos frutos do meio em que estamos inseridos, mas a partir de certa altura na vida, cabe-nos a nós mesmos criar consciência e procurar recursos para a nossa própria evolução.

Assim, e decididos a continuar a interpretar a vida dos outros, façamos então, uma pequena adenda ao nosso raciocínio lógico e intrincado de argumentos e justificações, para ponderar também, que crianças terão sido.

O melhor que podemos fazer por nós, pelos nossos, por quem nos rodeia e pela sociedade em geral, é ver aquilo em que essa pessoa se tornou hoje e pensar na criança que um dia possa ter sido, ainda no colo da sua mãe, indefesa, frágil, com a vida pela frente. Que tipo de experiências terá tido? De que forma o mundo lhe foi apresentado? O que escolheu acreditar? Que ferramentas internas foi adquirindo e quais foi desprezando? Que escolhas terá feito para chegar onde chegou?

Que não nos esqueçamos de que chegamos ao mundo todos da mesma forma e que são as nossas vivências em conjunto com a nossa própria biologia, com a nossa informação genética, que irão conduzir a nossa forma de pensar e olhar as coisas, moldando a nossa personalidade. Uns têm capacidade de se posicionar de uma forma, outros, pelos mais diversos motivos que nós nem sonhamos, posicionam-se de outra.

Entendamo-nos, antes, como alunos da vida, eternas crianças do Universo e procuremos a utilidade, o bem maior de cada coisa, pois só assim podemos avançar, progredir, desbloquear e quebrar padrões de comportamento obsoletos, olhando o mundo com amor e tolerância, ao invés de inveja, ódio ou revolta, para que se possa tornar um lugar pacífico.

Assim, e para que a crítica não volte ao pombal, isto é, não nos seja devolvida, não só pela esterilidade do acto, mas pela perda de tempo e energia, que se procure entender o outro não através do nosso próprio filtro, mas sim, colocando-nos o mais fielmente possível, no seu lugar. E, mais do que procurar entendê-lo, que se aprenda com o seu exemplo.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

You may use these <abbr title="HyperText Markup Language">html</abbr> tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*